DESCOBERTA NOVA ESPÉCIE DE INHAMBU ENDÊMICA DO BRASIL

0

Você conhece a canção Evidências, de Chitãozinho e Xororó? Muitos conhecem, mas você já parou para pensar de onde vem o nome dessa dupla sertaneja? Ela é baseada em duas aves brasileiras muito simpáticas, o inhambu-chintã e o inhambu-chororó. E hoje vamos falar um pouquinho sobre a família deles, os inhambus.

Inhambus são aves da família Tinamidae que vivem no chão de florestas por toda a América Latina. Aqui no Brasil, temos mais de 20 espécies de tinamídeos. E tem uma delas que é muito comum no sudeste do Brasil, o inhambuguaçu (Crypturellus obsoletus). Apesar de habitar florestas extensas, ele pode ser encontrado na maior metrópole do país: no Horto Florestal, no norte da cidade de São Paulo.

Mas o inhambuguaçu não ocorre apenas na Mata Atlântica do sudeste do Brasil. Existem populações dessa ave presentes na Amazônia, nos estados do Pará, Mato Grosso, Rondônia e Acre. Além disso, há também populações presentes nos países andinos, desde a Bolívia até a Venezuela.

Desde o século XIX, os ornitólogos perceberam que as populações amazônicas e andinas são diferentes das populações da Mata Atlântica. Existem algumas diferenças na cor da plumagem, mas o que chama mais atenção são as vozes: a vocalização dessa espécie varia muito ao longo de sua distribuição.

Porém essas diferenças não eram consideradas tão grandes a ponto de chamarem de espécies diferentes. Então os ornitólogos descreveram essas outras populações como subespécies (ou raças geográficas) de Crypturellus obsoletus. Ou seja, em cada parte do território existiam populações um pouco distintas e que eram, por essa razão, chamadas de subespécies diferentes.

Este mapa mostra a distribuição das subespécies de Crypturellus obsoletus na América do Sul. Há subespécies na Mata Atlântica (em azul), nos Andes (em verde), e na Amazônia não andina (em vermelho e marrom).

Como todo cientista é curioso, pesquisadores do Museu de Zoologia da USP, em São Paulo, decidiram estudar melhor essa variação em Crypturellus obsoletus. Vitor Gomes e Luís Fábio Silveira resolveram comparar as populações amazônicas (fora dos Andes) com as populações da Mata Atlântica, e os resultados deste estudo foram publicados em abril de 2021, em uma revista científica chamada de Zootaxa.

Na Mata Atlântica, a subespécie é conhecida como Crypturellus obsoletus obsoletus. Já na Amazônia não andina, existem duas subespécies: Crypturellus obsoletus griseiventris no Pará e no Mato Grosso, e Crypturellus obsoletus hypochraceus em Rondônia. E para poder comparar essas populações, os pesquisadores utilizaram duas fontes de dados: peles preservadas em coleções científicas e gravações de áudio disponíveis na internet.

As peles em coleções científicas são basicamente aves empalhadas, enchidas de algodão, que conservam todas as penas. Isso permite aos cientistas observar como é a coloração da plumagem, e assim comparar populações de regiões distintas.

Exemplo de peles de aves que ficam guardadas em coleções científicas de museus de história natural. A ave de cima é um exemplar de Crypturellus obsoletus obsoletus e a de baixo é C. o. griseiventris, ambas da coleção do Museu de Zoologia da USP, no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

Já as gravações de áudios foram obtidas de portais de ciência-cidadã, como a Macaulay Library (ligada ao eBird), o Xeno-Canto e o WikiAves. Se você já compartilhou uma gravação do inhambuguaçu nessas plataformas, é provável que ela tenha sido usada nessa pesquisa. As gravações são muito importantes porque nos permitem analisar as vocalizações das aves, que são essenciais para entender sua evolução e delimitar espécies.

Após comparar dezenas de peles e escutar centenas de gravações, os cientistas chegaram a duas conclusões: (1) não existe nenhuma diferença de plumagem ou de voz que justifique chamar griseiventris e hypochraceus de subespécies diferentes, pois elas são idênticas; e (2) existem diferenças suficientes que permitem separar essas populações das populações da Mata Atlântica como duas espécies diferentes.

Quando a gente se depara com uma questão do tipo 1, em que espécies ou subespécies são consideradas sinônimos, nós damos a elas o nome mais antigo. A subespécie griseiventris foi descrita para a ciência em 1895, enquanto hypochraceus só foi descrita em 1938. Como agora sabemos que as duas são a mesma coisa, o nome mais antigo prevalece, então chamamos ambas de griseiventris.

A outra conclusão do artigo é que essas populações são uma espécie distinta. Então em vez de chamá-las de Crypturellus obsoletus griseiventris, chamamos apenas de Crypturellus griseiventris. E essa é uma nova espécie para o Brasil, aumentando o número atual de espécies brasileiras.

E este é um outro ponto importante: é comum encontrarmos notícias sobre novas espécies de aves ou outros animais, mas nem sempre elas foram descobertas agora. Muitas vezes, estudos científicos percebem que algumas populações, que antes eram tratadas como subespécies, possuem diferenças significativas que nos permitem chamá-las de espécies diferentes.

Dito isto, deem boas-vindas ao inhambu-poca-taquara (Crypturellus griseiventris), nova espécie de inhambu endêmica do Brasil, ou seja, que só ocorre aqui em território brasileiro.

Quer ler o artigo original em inglês? Ele pode ser encontrado aqui:

Caso você não tenha acesso à revista, pode pedir pelo artigo no meu e-mail: vitorgdeus@gmail.com


AUTOR: VITOR GOMES / Graduando Biologia USP, desenvolvendo pesquisa com taxonomia de aves no Museu de Zoologia da USP/SP.  Apaixonado pela vida, sua maior inspiração para estudar as aves são os inhambus.

 

 

 

 

 

Fonte: Guia Birding Brasil

 

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado.